Resenha: A mão e a luva





Que é difícil classificar Machado de Assis em uma escola definida todo nós já sabemos. Como também sabemos que isso se dá ao fato dele estar alguns passos a frente em relação aos seus contemporâneos. Todavia, não é de uma hora para outra que se chega a uma obra como Memórias póstumas de Brás Cubas, um dos melhores livros da literatura brasileira ao lado de Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Até conseguir tal feito, Machado nos deixou obras menores, mas que possuía o seu quilate, apesar de estar preso, ainda, a um gosto muito comum da época. A mão e a luva, publicado em 1874 – um ano antes de Senhora, de José de Alencar – é um bom exemplo disso.



Se colocarmos esta obra de Machado ao lado da de Alencar observamos com ambas, apesar de trabalharem uma temática social, em consonância com o Realismo que estava por vir, possuem um desfecho que se esperava de um autor romântico. Então, ao falar de Guiomar, uma moça criada pela madrinha que vive na corte e que tem alguns pretendentes a casamento e precisa escolher entre três dele, Machado traz dentro de sua obra alguns aspectos de ruptura com o Romantismo, mas, ao seu fim, se posta como um escritor romântico.

Estêvão é um dos pretendentes de Guiomar. Este personagem é a imagem dos românticos: sentimental, de um sentimentalismo exacerbado, leitor de Goethe e com fortes tendências a morrer de amor. Ao entrarmos na narrativa, em suas primeiras páginas, encontramos um Estêvão sofrendo amarguradamente pelo fim de seu enlace com Guiomar. Vale destacar que a construção de Estêvão é feita com aquele estilo meio bonachão de Machado, descrevendo com ares de ironia tal comportamento. A negação de contrair matrimônio com Estêvão é a forma que Machado encontrou para negar o Romantismo.

A forma da escrita é outra forma de combatê-lo. Se compararmos com Senhora, toda aquela poesia presente na obra – própria do Romantismo e seu hibridismo – não encontra-se em A mão e a luva. Outra marca de negação da corrente que antecede o Realismo.



(Falo anteceder no sentido apenas de como consta para fins didáticos. Em historiografia literária sou de mesma opinião que Afrânio Coutinho que em seu Conceito de literatura brasileira afiram que a categorização por períodos fixos é vã, uma vez que podemos encontrar um autor com estilo romântico em pleno Realismo e vice-e-versa

Outro personagem que é preterido é Jorge, primo de Guiomar. Ciente de que o estilo de Machado é mais ácido e corrosivo em suas críticas à sociedade, esperava que Jorge seria a escolha de Guiomar. Criados juntos, ambos receberiam a herança da madrinha quando esta viesse a falecer. Logo, se a intenção era romper de vez com o Romantismo, o mais lógico seria realizar um casamento por interesse, onde ambos – Guiomar e Jorge – sairiam com a herança, não tendo que dividi-la.

A fala da inglesa Mrs. Oswald, espécie de governanta da casa da baronesa, madrinha de Guiomar, reforça bem a conotação que Machado atribui ao casamento dentro da sociedade:

A gratidão... e o interesse, continuou ela; devemos contar também com o interesse, que é um grande conselheiro íntimo. Ela não há que de querer sacrificar a afeição da madrinha, que para ela vale...

A exemplo do que acontece em Senhora, a crítica a uma sociedade que realiza o casamento por interesse se desfaz para que se tenha um final que atenda ao gosto da época. Quando Aurélia, em Senhora, deixa de se casar com vários pretendentes por manter um amor secreto por Seixas e para por em prática sua vingança e a crítica de Alencar à sociedade, tudo isso se desfaz quando ela se joga aos seus pés implorando-lhe seu perdão.

A escolha por um final mais ao gosto da época, com laivos de romantismo, mesmo quando este é criticado a todo instante ao longo da obra, torna um romance que, até então, me parecia mais uma grande obra de Machado, um livro que se propõe a romper padrões, mas que não vai tão a fundo nesse propósito.

Voltando à escolha de Guiomar, o último e o escolhido pretendente era seu vizinho, Luís Alves, personagem que conhecemos dando conselhos amorosos a Estêvão quando ele sofria pelo fim de seu namoro com Guiomar. Luís Alves, advogado, foi o único que despertou paixão em Guiomar, perturbando-a, perturbação essa que foi transcrita em passagens escritas aos moldes românticos, buscando uma fusão entre poesia e prosa, em linguagem metafórica, representando o surgimento do amor em Guiomar por meio da escrita:

Sua natureza exigia e amava essas flores do coração, mas não havia esperar que as fosse colher em sítios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto modesto plantado em frente da janela rústica. Ela queria-as belas e viçosas, mas em vaso de Sévres, posto sobre móvel raro, entre duas janelas urbanas, flanqueando o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas na alcatifa do chão.

Mas isso não apaga a qualidade do texto, principalmente quando encontramos trechos como os que seguem, de um Machado refletindo sobre a paixão. São passagens belas que, confesso, nunca acharia que leria em obras de Machado e o seu estilo mais zombeteiro:

“O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epístola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um “post-scriptum”...”

Ou:

[...] eu creio que a senhora sonha talvez demais. Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? Digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor, contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.



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